
Da “silver economy” aos “Super-agers”, conheça 25 palavras que estão a mudar a forma de viver, trabalhar e envelhecer
Durante décadas a história de quem envelhece foi quase sempre contada com palavras que expressavam perda, declínio, dependência e fim de ciclo. Mas uma nova linguagem, com novas tendências, expressões e ideias, está a revolucionar a narrativa da longevidade e, além de estar a mudar o vocabulário, está também a mudar a forma como olhamos para o futuro. Hoje fala-se de idade biológica, “super-agers”, cidades amigas das pessoas mais velhas, medicina da longevidade ou trabalho multigeracional.
Esta transformação está a acontecer ao mesmo tempo na medicina, na economia, na comunidade e no mercado de trabalho. A chamada “sociedade dos 100 anos”, onde viver até essa idade é mais comum, está a criar novas oportunidades, novas dinâmicas e também novas palavras. Umas vêm da ciência do envelhecimento, outras nasceram em universidades americanas e relatórios internacionais, e várias ganharam notoriedade em artigos de meios como o The Washington Post ou a National Geographic.
Este é um guia para perceber a linguagem da nova longevidade.
Age-friendly cities (cidades amigas das pessoas idosas)
Lançado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2007, o conceito de age-friendly cities descreve cidades pensadas para uma população que vive mais anos: transportes acessíveis, espaço público inclusivo, serviços adaptados e maior participação social. Segundo o site da OMS, em Portugal, cidades como o Porto e Braga integram atualmente a rede mundial de cidades e comunidades comprometidas em tornarem-se mais age-friendly.
Aging in place (envelhecer em casa)
Ideia de que envelhecer melhor passa, sempre que possível, por continuar a viver em casa e na comunidade, preservando autonomia, independência, proximidade e laços sociais. O conceito pretende impulsionar soluções de apoio domiciliário, habitação adaptada e cidades pensadas para populações mais velhas.
Biomarcadores
Indicadores biológicos usados para medir o risco de doença, envelhecimento ou a resposta a tratamentos. Permitem avaliar a inflamação, saúde metabólica ou envelhecimento celular antes do aparecimento de sintomas.
Blue Zones (zonas azuis)
Regiões do mundo onde vivem populações particularmente longevas, como Okinawa, no Japão, ou a Sardenha, em Itália. A expressão surgiu pela primeira vez num estudo científico publicado em 2004 na revista Experimental Gerontology, sobre a elevada concentração de centenário naquela ilha italiana. Os investigadores Michel Poulain e Gianni Pes assinalaram essas áreas com círculos azuis num mapa, origem ao termo “Blue Zones”, que ganhou dimensão com as reportagens do jornalista Dan Buettner para a National Geographic sobre os locais do planeta onde as pessoas vivem mais e melhor.
Capital humano sénior
Ideia de que o envelhecimento da população não representa apenas pressão sobre pensões e sistemas de saúde, mas também um enorme património de experiência, conhecimento e competências acumuladas. O conceito aparece ligado à economia da longevidade e ao debate sobre trabalho multigeracional.
Coabitação intergeracional
Modelos de habitação que juntam jovens e pessoas mais velhas para combater a solidão, partilhar custos e criar redes de apoio informal. O conceito começou a ganhar expressão em França, Holanda, Alemanha e nas cidades espanholas de Barcelona e Madrid, onde programas que colocam estudantes a viver com idosos surgiram como resposta ao envelhecimento populacional, à escassez de habitação acessível e ao isolamento nas grandes cidades.
Dividendo da longevidade
O conceito de “longevity dividend” (dividendo da longevidade) destacou-se com a publicação de um artigo do gerontologista Jay Olshansky e outros investigadores, em 2006, na revista The Scientist, onde defendiam que se as pessoas envelhecerem com mais saúde, autonomia e independência, a longevidade pode deixar de ser vista como um custo e passar a gerar benefícios económicos e sociais. Expressa a vantagem económica e social que uma sociedade obtém ao investir na saúde e na produtividade das pessoas ao longo de toda a vida.
Economia da longevidade
Frequentemente associada à Silver Economy ou Economia Prateada, define-se como o conjunto de atividades económicas, produtos, serviços e inovações que visam satisfazer as necessidades, preferências e o estilo de vida de uma sociedade que vive mais anos. Engloba habitação, turismo, tecnologia, finanças, entretenimento e educação adaptados para uma vida mais longa e ativa e reconhece o valor da população mais velha como consumidora ativa, investidora e participante na sociedade.
Envelhecimento ativo
Conceito desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde no documento Active Ageing: A Policy Framework, que defende participação social, autonomia, independência e qualidade de vida ao longo do envelhecimento. No site da Associação Portuguesa de Psicogerontologia lê-se a definição da OMS que descreve envelhecimento ativo como o “processo de optimização das oportunidades para a saúde, participação e segurança, para melhorar a qualidade de vida das pessoas que envelhecem”.
Esperança de vida saudável
Número médio de anos vividos com autonomia e sem limitações significativas causadas por doença ou incapacidade. Ao contrário da simples esperança de vida, o conceito procura medir não apenas quanto tempo vivemos, mas quantos desses anos são passados com qualidade de vida. Não é exatamente o mesmo que healthspan, termo usado na ciência da longevidade para definir os anos vividos com boa saúde física e cognitiva.
Geração sanduíche
Adultos (geralmente entre os 40 e os 60 anos) que se encontram entre duas gerações dependentes: cuidam simultaneamente de filhos e pais idosos.
Geriatria
Especialidade médica focada na prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças mais frequentes com o envelhecimento.
Gerociência
Nova área científica dedicada ao estudo da biologia do envelhecimento. A gerociência parte da ideia de que atrasar os mecanismos celulares do envelhecimento pode também reduzir risco de doenças como Alzheimer, diabetes ou doença cardiovascular.
Gerontologia
Área multidisciplinar dedicada ao estudo do envelhecimento e da velhice nas dimensões biológica, psicológica, social e económica. Ao contrário da geriatria, não se centra apenas na doença, mas também na forma como as sociedades envelhecem e se adaptam a vidas mais longas.
Grey pound
Termo britânico usado para descrever o peso económico da população mais velha. A expressão é usada em meios de comunicação, como o The Guardian, para mostrar como consumidores sénior passaram a influenciar mercados como turismo, saúde, tecnologia ou habitação.
Idade biológica
Indicador usado para medir o estado real de envelhecimento do organismo, independentemente da idade cronológica. É calculada através de biomarcadores, análises celulares e dados fisiológicos.
Idadismo
É a discriminação com base na idade. O termo “ageism” surgiu em 1969 numa entrevista concedida ao jornal The Washington Post pelo médico gerontologista e psiquiatra norte-americano Robert Neil Butler e ganhou mais relevância quando a OMS passou a tratá-lo como um problema global de saúde pública e exclusão social. Em 2021 a OMS lançou a campanha global #AWorld4AllAges contra o Idadismo e no Global Report on Ageism define o conceito como estereótipos, preconceito e discriminação baseada na idade.
Inflammaging
Termo usado para descrever a inflamação crónica de baixo grau associada ao envelhecimento e ligada ao aparecimento de doenças cardiovasculares, neurodegenerativas e metabólicas. O conceito apareceu em estudos do imunologista italiano Claudio Franceschi, no início dos anos 2000, que se debruçaram sobre a relação entre envelhecimento, sistema imunitário e doenças crónicas.
Medicina personalizada
Abordagem que adapta prevenção e tratamentos ao perfil genético, clínico e comportamental de cada pessoa. A chamada “medicina da longevidade” surge aqui como extensão desta lógica preventiva e preditiva.
Medicina preventiva
Centrada em evitar doenças antes dos sintomas aparecerem. Está na base da mudança da medicina reativa para a medicina da longevidade, focada em prolongar os anos de vida com saúde, autonomia, independência e qualidade de vida, através da prevenção, da deteção precoce de risco e da personalização dos cuidados.
Reforma ativa
Conceito associado à ideia de continuar a participar na vida profissional, social ou cívica depois da idade tradicional da reforma.
Risco genético
Probabilidade acrescida de desenvolver determinadas doenças devido à herança genética. O conceito é usado na medicina personalizada e preventiva, permitindo identificar predisposição para, por exemplo, doenças cardiovasculares, cancro ou Alzheimer antes do aparecimento de sintomas.
Silver economy (economia prateada)
Expressão popularizada nos meios de comunicação económicos para definir os mercados e negócios ligados aos consumidores com mais de 50 anos. É um conceito que encara o envelhecimento como uma oportunidade de inovação e crescimento económico e tende a focar-se mais no mercado de consumo e nos produtos específicos para quem já é “sénior”. A diferença para a Economia da Longevidade é que esta é um conceito mais amplo que abrange o ciclo de vida completo e a adaptação da sociedade para o facto de se viver mais tempo.
Super-agers
Termo usado para descrever pessoas muito idosas que preservam capacidades cognitivas muito acima da média. O conceito surgiu em estudos da Northwestern University, nos Estados Unidos, sobre pessoas com mais de 80 anos cuja memória se mantinha comparável à de pessoas décadas mais novas.
Trabalho multigeracional
Modelo laboral em que quatro ou até cinco gerações convivem em simultâneo. O conceito está a transformar empresas, criando novas dinâmicas intergeracionais, carreiras e modelos de liderança. Ganhou relevância com o aumento da esperança de vida e com a valorização do capital humano sénior numa economia onde as carreiras se tornaram mais longas.
Longevidade é a secção do Expresso, com o apoio da CUF e da MGEN, que reúne informação prática e relevante sobre saúde, envelhecimento ativo, qualidade de vida, prevenção e inovação médica para viver mais e melhor.
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Artigo Original: https://expresso.pt/longevidade/2026-05-08-o-novo-dicionario-da-longevidade-0ce30f32

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