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O movimento Childfree e a queda na taxa de natalidade no Brasil e no mundo: reflexões.

O movimento Childfree, cujo nome traduz-se literalmente como “livre de crianças”, representa uma escolha pessoal de não ter filhos e, em alguns casos, uma busca por espaços públicos onde a presença de crianças seja limitada.

Essa tendência, que surgiu nos Estados Unidos em 1972 com a criação do grupo National Organization for Non-Parents, reivindica a ideia de que ter filhos é uma opção, não uma obrigação. Inicialmente direcionado às mulheres que se sentiam pressionadas a ter filhos, o movimento Childfree se espalhou por diferentes países, incluindo o Brasil, onde tem ganhado força nos últimos anos.
Mais recentemente, o movimento assumiu uma posição mais radical, defendendo não apenas o direito de não ter filhos, mas também a criação de espaços públicos livres de crianças, como hotéis e restaurantes que estabelecem políticas de “adultos sozinhos” Isso visa proporcionar um ambiente tranquilo e relaxante para aqueles que desejam evitar o barulho e as interrupções associadas às crianças.
Essa tendência tem crescido, especialmente à medida que a proporção de mulheres que optam por não ter filhos aumenta. Em 2014, 38,4% das brasileiras com mais de 15 anos não eram mães, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022).
Hoje no Brasil temos indicadores recentes que mostram que mais de 7 milhões de pessoas no Brasil vivem sós, representando aproximadamente 15% das residências brasileiras, destes números 3,7 milhões são homens e 3,3 milhões de mulheres, publicados na base de dados do IBGE, de acordo com o último censo demográfico.
Além disso, novas motivações para não ter filhos surgiram, incluindo a influência do movimento feminista e a preocupação ambiental, que argumenta que reduzir o crescimento populacional pode diminuir o impacto da humanidade sobre o planeta.
No entanto, a prática de restringir a entrada de crianças em estabelecimentos comerciais tem gerado controvérsia e críticas. Organizações como o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) argumentam que essa prática é ilegal e discriminatória, violando a Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Código de Defesa do Consumidor (CDC). Isso levanta debates sobre a discriminação e os direitos das crianças em espaços públicos.
Em um contexto mais amplo, o movimento Childfree também tem implicações no que diz respeito à baixa natalidade e ao envelhecimento da população, uma vez que é importante considerar que a sociedade já está envelhecendo e o número de idosos é elevado. Estima-se que em 2030, por exemplo o Brasil, estará na sexta posição de um país mais envelhecido do mundo.
Apesar dos idosos sem filhos terem a capacidade de criar redes de apoio alternativas, com a participação em programas educativos, culturais e de lazer, e apresentar ou buscarem recursos para viver bem, muitas pessoas com mais de 60 anos que não têm filhos podem enfrentar desafios adicionais no processo de envelhecimento, e essas preocupações são fundamentadas por meio de alguns segmentos de estudiosos.
A ausência de filhos na vida de adultos é uma nova tendência, mas de acordo com alguns especialistas pode resultar em desafios emocionais, sociais e financeiros dependendo do perfil de velhice de cada indivíduo, de acordo com esta linha de raciocínio, estudiosos destacam que os cuidados a estas pessoas, poderiam estar prejudicados, uma vez que naturalmente na velhice, acontece uma redução na rede de suporte social, com a perda de entes queridos, com processos como o fenômeno da aposentadoria.
No entanto, por outro lado, outra vertente de estudiosos destacam que é importante respeitarmos o protagonismo e o significado de vida de cada um, e a escolha de não ter filhos e/ou de não ter uma convivência com crianças, é única e não deve ser vista como um comportamento anti-social.
A gerontologia por sua vez tem se pautado, que se pensarmos em uma sociedade digna para todas as idades, temos que pensar em uma sociedade em que haja trocas entre gerações. Promovendo assim as memórias culturais, a história da sociedade e seus valores, que devem ser transmitidos de gerações em gerações, além disso acontece um processo de aprendizagem quando há ambientes co-habitados e ou frequentados por pessoas de diferentes idades.
Além disso, quando pensamos no combate aos preconceitos relacionados à idade, precisamos pensar em ambientes intergeracionais para fortalecer os vínculos entre as pessoas de diferentes idades e ao mesmo tempo, prevenirmos e combatermos os conflitos entre as gerações. E você conhecia o movimento childfree? O que pensa a respeito deste movimento já presente em algumas culturas?

Referências consultadas:
CANAVEZ, Luciana Lopes; DA SILVA, Maylon Pereira Claudino; DE ANDRADE, Victor Luiz Pereira. Estabelecimentos childfree: liberdade de iniciativa vs. Direitos da criança e do adolescente. Revista Eletrônica da Faculdade de Direito de Franca, v. 15, n. 1, p. 355-372, 2020.
CORDEIRO, Tiago. O que é o movimento “livre de crianças” e o que a lei diz sobre a prática. Gazeta do povo. 21 de dez. de 2019. Disponível em:
<https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/o-que-e-o-movimento-childfree-e-o-que-diz-a-lei-sobre-a-pratica/>. Acesso em: 09 de nov. de 2023.

Assinam este texto:
Diana dos Santos Bacelar
Estudante de Graduação do curso de bacharelado em Gerontologia pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. Atualmente faz estágio na área de pesquisa em treino cognitivo de longa duração pelo Instituto SUPERA – Ginástica para o Cérebro.
Tem interesse na área de treino e estimulação cognitiva para idosos, com enfoque em neurologia cognitiva. Já foi bolsista PUB da Universidade Aberta à Terceira Idade da EACH-USP, atual USP 60 + nas oficinas de letramento digital.
Profa. Dra. Thais Bento Lima-Silva
Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Docente do curso de Bacharelado e do Programa de Mestrado em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Membro da
diretoria da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Instituto Supera de Educação.

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