Elas vão ficando cada vez em menor número. E pode ficar a solidão
Para uma vida longa e saudável, existem caminhos que convergem e se complementam, que podem ser adotados por quem deseja seguir um plano nessa direção: os nove hábitos em comum nas Blue Zones (as regiões com pessoas mais longevas do mundo), os quatro pilares para o envelhecimento ativo recomendados pela Organização Mundial da Saúde, as 14 orientações para prevenção do Alzheimer e outras demências indicadas.
Entre todos, o fator apontado como o mais importante para alavancar todos os demais para uma vida mais bem-sucedida é a Saúde Social, ou seja, criar e manter bons vínculos, conexões sociais, conforme as descobertas do mais longo estudo científico sobre o que realmente nos faz felizes e longevos realizado pela Universidade de Harvard, desde 1938.
Como fazer uma nova amizade na infância
Duas crianças, que até então não se conheciam, se encontram e conversam:
— Quer brincar? Eu sei subir aquela escada e pular lá de cima. E você?
— Eu também. Vamos?
— Qual é a tua cor favorita? A minha é amarela.
— A minha é o azul.
— Como é teu nome? Letícia. E o teu?
— Clara. Eu tenho sete anos, e você?
— Eu tenho sete também. Quer ser minha amiga?
— Eu quero!
Quantas amizades dessa maneira simples e descomplicada a gente iniciou no pátio da escola, na praça, na rua das nossas casas enquanto brincava e se divertia?
Algumas dessas amizades atravessam toda a vida. Outras, apenas uma fase dela. Mas é incrível como a semeadura e a colheita de amizades se fazem mais generosas entre a infância e a juventude. Depois, parece que desaprendemos.
Com o passar do tempo, vamos ficando com menos tempo para nos reunir com os amigos, mais desconfiados com relação a quem depositar a nossa confiança, com medo de não sermos gostáveis o bastante, inteligentes o suficiente a ponto de cultivar amizades.
Em meio aos compromissos da vida, filhos, cônjuge, casa, pais, trabalho, os amigos vão perdendo a prioridade e, quando percebemos, os contatos vão rareando a ponto de não mais existirem. As amizades vão ficando cada vez em menor número. E pode ficar a solidão. E solidão dói, e pode até adoecer e matar.
Chega uma hora em que os filhos voam, ou a aposentadoria chega, ou o casamento se desfaz, ou o cuidado com os pais já não se faz mais necessário, ou mesmo a gente se dá conta de que – mesmo em meio a todas as relações que temos – as amizades têm seu espaço único, importante, e que está na hora de preenchê-lo. A vida cria vazios difíceis de preencher. Cadê os/as amigos/as que já não estão mais aqui?
Será que é possível fazer novos/as amigos/as quando já somos adultos/as?
Claro que sim! Porém, entre nessa jornada sabendo que precisará colocar tempo, atenção e energia nesse objetivo.
Não é fácil cuidar de nossos relacionamentos nos dias de hoje, com tantas tarefas e a rotina a nos chamar pra acomodação. A nossa tendência é a de acreditar que, depois que conquistamos novas amizades e relacionamentos íntimos, eles cuidarão de si mesmos. Como músculos, quando não exercitados, eles se atrofiam. A vida social precisa de exercício para se manter viva e ativa.
Por onde começar? Analise o seu círculo atual e como você se sente nele. Quais são as relações que fazem sentido ou não. Faça o seu “observatório social”. Liste as pessoas que estão na sua vida, que te afetam diariamente, de vez em quando, raramente, para o bem ou para o mal. Pergunte-se sobre o tipo de relacionamento: ele é energizante, estressante, frequente, raro? Reflita, a partir desses parâmetros, o quanto seus relacionamentos ajudam seu bem-estar e saúde. Clique aqui e leia a coluna que escrevi em detalhes sobre como fazer a análise do seu universo social.
Na sequência, entenda quais fontes de apoio seus vínculos representam na sua vida. Quais têm a finalidade de diversão? E quais deles são seus vínculos emocional e de confiança Quais deles lhe dão o sentimento de pertencimento, contam sua história? Algum deles está em mais de uma categoria? De que maneira? Em que grau cada um pode ser energizante ou estressante para você? Nessa radiografia, você poderá identificar, por exemplo, que tem muitas conexões para trocar conhecimento, mas poucas para sair e se divertir ou, talvez, pedir ajuda. Clique aqui e aprenda a fazer esse passo seguinte da análise do seu Universo Social.
Então, feito o diagnóstico do seu universo social, é hora de colocar mãos à obra!
Comece olhando para o que já está funcionando bem. Ajuste ali. Inicie pelo mais fácil. Quem são as pessoas energizantes na sua vida que você quer manter mais perto e por mais vezes? Quem são as pessoas estressantes e que, talvez, você possa neutralizar suas influências?
Faça planos e cumpra: você agendará para ligar para essas pessoas, convidá-las para um café, uma refeição, mandar uma mensagem por whats para perguntar como essa pessoa está, deixará na sua agenda um momento na semana para se encontrar com elas e também para realizar esses contatos. Lembre-se: manter amizades é um trabalho ativo.
Agora você já sabe quais fontes de amizade precisa captar e cultivar. Já começou o cultivo entre os vínculos que já tem. Vamos para a conquista de novas amizades!
As três atitudes que energizam relacionamentos
Conforme o estudo da Universidade de Harvard, existem três atitudes importantes que promovem vínculos positivos mais potentes. São elas:
Generosidade
A regra é “você colhe o que você planta”, e estudos comprovam que existe uma ligação neural e prática entre generosidade e felicidade. A generosidade prepara o terreno para bons sentimentos; esses bons sentimentos tornam as pessoas mais propensas a ajudar os outros no futuro, formando um ciclo virtuoso. A questão é que o equilíbrio entre o dar e o receber se faz necessário. “Precisamos ser egoístas de um modo sábio”. Clique aqui para ler a coluna sobre o perfil das pessoas “taker”, “giver” e “matcher”.
Sem o medo, não existiria a coragem
Com o tempo, a gente se enferruja. Perde o jeito. Como quando a gente passa muito tempo sem jogar aquele esporte que treinava na adolescência ou sem andar de bicicleta. De início, dá medo de cair e dar bola fora. E pode ser que isso aconteça. É preciso colocar-se pro jogo, aceitar que errar é humano, que a gente é humano e que tá tudo bem errar. Só aprende quem erra. Continuar treinando.
Persistir no objetivo de se abrir para novas conexões, novas experiências, consciente de que, se quisermos usufruir dos benefícios que elas vão nos proporcionar, precisaremos encarar nossos medos e traumas.
Curiosidade
Um bom relacionamento é aquele em que o outro te enxerga e presta atenção em você. Dá o que ele tem de mais precioso, o tempo dele.
É dessa forma que você também conquistará novas conexões, com uma curiosidade radical, prestando atenção, querendo verdadeiramente saber sobre elas. Perguntar pra gente mesmo e ir atrás das respostas: quem é esta pessoa e o que está se passando com ela?
Desenvolver um interesse genuíno pelas pessoas. A curiosidade nos ajuda a nos conectar com as pessoas, e essa interação nos engaja com a vida!
Afinal, como fazer amigos depois de adulto?
Busque atividades por interesse: quais são os assuntos e/ou atividades que você gosta de fazer ou desejaria aprender? Então, inscreva-se em aulas e cursos para realizá-las Podem ser aulas de dança, canto, artesanato, pintura, yoga, história da arte, xadrez, marcenaria, aquarela, culinária, grupos de trilha ou clubes de cinema ou de leitura. Nelas você encontrará pessoas que também têm ao menos um interesse em comum com o seu. Um bom começo!
Voluntariado: envolva-se com causas nas quais você acredita; é uma excelente maneira de encontrar pessoas com valores semelhantes. Você pode iniciar escolhendo se deseja atuar com crianças, adolescentes, mulheres, pessoas em situação de rua, pessoas idosas, animais e, a partir dessa escolha, buscar as organizações da sociedade civil não governamentais ou igrejas que atuem na área desejada.
Hobbies: vá a lugares relacionados aos seus interesses, como livrarias, galerias, exposições, festivais, etc.
Busque na sua comunidade: preste atenção e dê atenção às pessoas ao seu redor, cumprimente vizinhos, converse com colegas de trabalho, tente aprofundar essas interações.
Resgate Amizades do Passado: tente reatar contatos com ex-colegas de escola ou faculdade, ex-colegas de trabalho ou amigos de outras fases da vida que ficaram para trás. As redes sociais ajudam bastante na tarefa de reencontrar as pessoas.
Não se arrependa
A enfermeira australiana que trabalha com cuidados paliativos – práticas assistenciais para pessoas com doenças incuráveis – Bronnie Ware, de 56 anos, ficou tão impactada ao acompanhar pacientes nas últimas semanas de vida que publicou o livro, que se tornaria um best-seller, “Antes de partir: os 5 principais arrependimentos que as pessoas têm antes de morrer”.
Os 5 arrependimentos são:
1. ‘Gostaria de ter tido a coragem de viver uma vida fiel a mim mesmo, e não a vida que os outros esperavam de mim’.
2. ‘Gostaria de não ter trabalhado tanto’.
3. ‘Gostaria de ter tido coragem de expressar meus sentimentos.
4. ‘Gostaria de ter mantido contato com meus amigos’.
5. ‘Gostaria de ter me permitido ser mais feliz.
O investimento em novas amizades e bons vínculos não será apenas um investimento em nossa vida sobre como vivemos o agora, mas principalmente sobre a forma como viveremos o nosso futuro e o legado que queremos deixar no mundo. A saúde social é uma ferramenta poderosa para nosso bem-estar e felicidade.
Texto originalmente publicado na SLER
Por Karen Farias

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